segunda-feira, 28 de abril de 2008

Reabertura: Bar do Henriq

A noite nos reserva, além de alguns prazeres, uma série de desventuras. Olhar atento, não se descuidar dos detalhes (às vezes imperceptíveis ao senso comum), não se deixar levar pela arrogância (achar que já domina a área), são regras que não devem ser abandonadas. Mas foi justamente o que eu fiz. Encarei bebida de procedência duvidosa, comida mais ainda, e pimba! Lá fui eu pro hospital, com um sem fim de "ites" como companhia. A boa notícia é que o dono do butiquim (grafia sugerida por Acir Vidal, seguindo orientações do sambista Moacyr Luz) também comeu a comida e, para o bem de todos, foi preparar tira-gosto pro diabo que o carregue.
Retorno combalido e desconfiado. Necessitando de uma cerveja bem gelada, uma boa dose de cachaça e um porção de língua com batatas, fui ao bar do Henriq, sito à rua Aleixo Neto, na Praia do Canto. A minha cor amarelo-esverdeada, para alegria do atencioso garçon Pokemon, logo deu lugar ao saudável rubor etílico apimentado.

Quando vou ao Henrique`s, a língua com batatas é um dos petiscos que eu costumo pedir (em breve providenciarei as fotos). Também gosto do pé de porco com feijão preto - que sempre chegam consistentes - pé e feijão (tem butiquim que serve aquela massa disforme de gordura e feijão derretidos). O terceiro é a rabada com agrião - necessário para manter o universo em equilíbrio. Tem também a dobradinha com feijão - mas não o manteiga. Esse último não me agrada. Gosto de dobradinha com batata

Dessa vez, como retomada dos serviços, não abusei da sorte e me ative à língua. Locupletei-me, senhores, sem arrependimentos. A cerveja estava geladiiiiiinha, que era uma beleza. E, pelo andar da carruagem, o fígado resistiu muito bem. Aguardem mais.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Retorno com Stilo's


Ê, vida! Mal comecei os trabalhos e já entrei de férias. A longa ausência assim se justifica. Retomo, agora, sem mais perda de tempo, a narrativa das minhas aventuras nos botequins de Vitória. Aventura, sim senhor, daquelas cheias de perigos, daquelas que, se bobear, pode levar ao caixão e à vela preta. Estava, ontem, bestamente caminhando pela Aleixo Neto, Praia do Canto, quase chegando na Reta da Penha, quando vi um colega bebericando uma cervejota no, sintam o nome, Stilo's Bar. Boteco categoria copo sujo, um dos últimos bastiões da cultura popular botinquinesca daquela paragem pequeno-burguesa (ao lado tem outro, do qual falaremos no próximo post). Parei, com a desculpa de falar com o velho amigo e a oculta e certa vontade de tomar uma ou duas, quiçá quatro cervejas de graça. Havia um bom tempo que por lá não passava e surpreendeu-me o novo banheiro, quase limpo. São dois, aliás. Antes era só um, para ambos os sexos, daqueles que, para fechar a porta, usava-se um barbante encardido, que, por isso mesmo, nunca era usado (o barbante) e a porta ficava aberta. A noite estava tranqüila, com pouca gente; na estufa um solitário bolinho de aipim; ao lado, o gerente arranhando o violão (logo guardado, diante da possível expressão de desgosto que povoou minha face), e, próximo à porta, a cena do crime: uma panela lotada de toucinho em cubos que lentamente se transformava em torresmo. Aguardei um pouco para enterrar o cadáver: uma pequena poção, só para não deixar o colesterol "aguando", como a vovó costumava dizer.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Pó de arroz


Por questões ideológicas, eu não fui ao Buana Tricolor, boteco fuleiro e completamente vazio (como vocês podem conferir na foto), sito à Lama.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O ovo colorido

Estive eu trocando algumas idéias com um colega, ontem, entre o final do dia e a noite feita. Falávamos, obviamente, sobre botecos. Há aqueles que são tradicionais e aqueloutros que a vida põe no nosso caminho como provação/experimentação. O meu amigo tende a idealizar o boteco tradicional, imaginando requisitos que estão mais para ficção do que para a realidade. Eu, pessoalmente, comigo mesmo, e publicamente também, como pesquisador diletante da cultura popular, sou adepto do azar: vou lá para ver o que acontece, ou, simplesmente acontece o encontro, sem nenhum tipo de expectativa, arranjo ou programação - um tipo de epifania dos deuses das ruas. Foi assim que aconteceu, ontem, logo após o papo.
Dirigindo-me para o lar, caiu um pé-d`água fenomenal. Pensei: taí um bom motivo para chegar tarde em casa. Olhei para minha esquerda e lá estava, quase imperceptível sob o véu de água, um boteco, com pessoas e música. Saltei do carro, entrei (entrar, no caso, é apenas modo de dizer, porque era um bar de calçada protegida por um toldo) e sentei-me à mesa. A música estava ao encargo de um trio composto por Zé Moreira (guitarra), Kako Dinelli (baixo) e Joãozinho (bateria), que interpretavam temas de jazz.
Como de praxe, encontrei conhecidos, jovens e não tão jovens, com quem continuei o papo sobre botecos, enquanto devorava uma poção de coxão mole (ou chã de dentro, como queira) com fritas (também conhecido pelo codinome filé com fritas) que - é o que importa - estava bem temperado e macio ao mastigar.
Papo vai, papo vem, acabei constatando como a cultura popular botequinesca está caindo no esquecimento. Do mesmo modo que alguns jovens não conhecem eletrolas e telefone "discado", também existem aqueles que nunca viram ovos coloridos na estufa de um boteco. Um jovenzinho ficou curioso, melhor, encafifado, pensando que se tratasse de algum código ou alguma metáfora referente a algum rito de passagem para freqüentadores de botecos. Pior, o editor do blog Contraovento teve que explicar que para se fazer um ovo colorido não é necessário passar baton no... na galinha. Estupefatos pelo galopante esquecimento do ícone oval das estufas, pedimos uma costelinha de porco, que estava temperada e de fácil digestão (prova cabal de que nem tudo está perdido), proporcionando maior sabor à gelada cerveja. O nome do boteco é Bar Caiana, e fica em Jardim Camburi, Vitória, à Av. Ranulpho Barbosa dos Santos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Do outro lado da ponte: Café Touché

Recebemos notícias enviadas pelo nosso assessor do outro lado da ponte (assolapo), em Vila Velha, que nos conta sobre sua experiência etílica-gastronômica no Café Touché. Leiamos:


"Querido mestre Buonaboca, recebi convite de um casal amigo para visitar o Café Touché, que, disse-me, com o devido cuidado, pode ser acessível ao bolso médio e ao paladar um pouco mais exigente (que não é bem meu caso - estou mais para gourmant do que para gourmet). O Café fica de frente para o mar, na Av. Antônio Gil Velozo, 1.856 - Praia da Costa, Vila Velha - ES. Telefone: (27) 3229-0181. Você pode optar pela varanda ou pelo salão interno (com ar condicionado). É um bar pequeno, mas aconchegante. Conta com uma carta de vinho regular e com drinques diversos. Outro aspecto interessante é a boa música. Tivemos o prazer de ouvir e ver o trio formado por Salsa (sax e voz), Bruno (piano acústico) e Josias (baixo acústico), tocando muito jazz. Iniciamos a comilança com uma entrada de pastas (presunto, beringela e queijo) e, gula minha, uma porção de Chili, que estava bom (a receita é estilizada, mas convence), com custo em torno de 15 e 18 reais, cada. Bebemos algumas cervejas (long neck - o que me incomoda) bem geladas e, lá pelas tantas, filei uma taça de um cabernet francês (Fortant, 2004) do gentil saxofonista Salsa (um vinho leve e bem equilibrado entre frutas e madeira, que, infelizmente, não faz parte da carta do bar). Encerramos a noite pedindo um filé com mostarda e um pene suave, que, vocês podem conferir na foto, agradou ao grupo. Os pratos variam entre 20 e 30 reais, mas, mesmo assim, chorei para pagar a conta. Um quesito que você tem deixado de lado em seus comentários: o banheiro. É limpo, mas extremamente apertado. Uma pessoa mais avantajada fisicamente terá dificuldades para "se virar" naquele restrito espaço.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Rua da Lama III - Adega

Antes de nos atolarmos na Lama, deixarei um recado para o Curt, que pediu informações sobre o restaurante Ferrinho. Fechou as portas e deixou apenas o folclore, mas, em breve, postaremos alguns points que primam por boas moquecas.
Outra: recebi um incentivador e-mail do literato Pedro Nunes, que agora reproduzo: "Meu caro,
W. H. Auden dizia que o bife é comida proletária. A comida dos nobres são as entranhas e as gorduras. Está certo. Aqui em Bento Ferreira você deve visitar o botequim do Nininho e da Vanessa. Fica na rua de A Gazeta, perto da escola São Domingos. O negócio lá é tão bom que de vez em quando eu baixo para um pêefe. Eu vou de Tonico e Tinoco a Bach, de Belle and Sebastian a Deep Purple. Com um buraco de ressalvas. Abraços, Pedro Nunes"
Valeu a dica, Pedro, e, no futuro, iremos conferir.

Agora, pautemo-nos na pauta: a Rua da Lama. É lá que encontramos o Adega, que serve da pizza ao bacalhau. Segundo o gerente, o bacalhau é a especialidade da casa e é servido em diversas receitas. Os preços são acessíveis (em torno de 20, 30 reais), mas o bacalhau... Se você não for exigente como L., nosso colaborador de ascendência lusitana, poderá até gostar do lance. Para ele, no entanto, um contumaz devorador do descabeçado peixe, os pratos não atingem, nem de longe, o nível exigido pelo seu paladar. Mas, o que ele queria por 20? O fato é que o rango não é de, imediatamente, se jogar fora.

A outra especialidade da casa é o vinho. Sempre ao gosto da juventude, que se considera imortal, lá encontramos uma carta recheada com grandes ícones da bebida de Baco: todos em garrafões, que decoram as paredes do boteco. Não, sr., eu não tive coragem de encarar. Lembro-me do período em que ficava dois ou três dias com os dentes roxos em função da degustação desse tipo de bebida. Fiquei na cerveja.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Rua da Lama II - Abertura, o bar ao lado do Cochicho

Um colega me disse que não freqüenta o Abertura por questões ideológicas. Para os moldes da Lama e dos enlamados jurássicos ele é considerado um bar "mauricinho e patricinha", daquele tipo que canta parabéns e faz festinhas, além de os fregueses falarem muito alto. O colega prefere ficar no Cochicho (separado por imaginária linha) e comer os pastéis de camarão e siri ou o gorjão de peixe do Abertura. Segui o ritual estabelecido e fui à cata dos tais pastéis. Sorte ou azar, a massa havia acabado. Olhei para a estufa de frios (self-service) exposta à porta do boteco e, ao perceber a profusão de mãos estranhas que ali adentravam, preferi não arriscar (quando se trata de boteco, prevalece o velho ditado: "o que o olho não vê, o estômago não sente"). Com o intuito de facilitar a avaliação do boteco, eu pedi um petisco que qualquer analfabeto em culinária conhece os rudimentos para o seu preparo: costelinha de porco frita e aipim (ou mandioquinha, como queira). A porção chegou. Tamanho que garantiria a satisfação de pelo menos três pessoas. Mas eis que acontece o inesperado, o azar, enfim: Pois não é que o lance estava horrível? Distribui o petisco entre as mesas vizinhas para democratizar a avaliação e não deu outra: todos acharam totalmente insosso. Sabe-se que carne de porco exige um tempo no tempero (é necessário marinar), melhor ainda se um dia passar no tempero. Com certeza o cozinheiro do boteco não está a par desse procedimento. Sofri, senhores. Dinheiro jogado fora (R$ 13 e uns quebrados). Dessa vez o colesterol torceu o nariz e o estômago.